O Brasil é um país de riquezas culturais inigualáveis, e seu patrimônio enfrenta desafios sem precedentes devido às mudanças climáticas. Neste artigo, exploraremos a Carta Brasileira do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas de 2025, suas diretrizes estratégicas e caminhos práticos para fortalecer a resiliência de bens materiais e imateriais em todos os biomas do país.
O impacto das alterações climáticas sobre o patrimônio cultural vai além da simples deterioração física. Trata-se de uma questão de justiça intergeracional, pois põe em risco tradições centenárias, narrativas comunitárias e saberes ancestrais. A Carta, elaborada pelo Icomos Brasil e ICOM Brasil com apoio de instituições como Iphan, Ibram e Casa de Oswaldo Cruz, estabelece um marco para a formulação de políticas culturais integradas às estratégias ambientais.
Em sintonia com metas internacionais — como a meta 9G do Quadro do Objetivo Global de Adaptação —, a Carta visa incorporar o patrimônio cultural nos planos de adaptação ao clima até 2030. Essa perspectiva exige abordagens técnicas e participativas, que considerem as especificidades de cada região e valorizem o protagonismo das comunidades locais.
Entre 2023 e 2025, foram realizadas mais de 50 consultas territoriais em todos os biomas brasileiros. Mesas-redondas, oficinas de campo e depoimentos comunitários permitiram identificar vulnerabilidades, riscos e soluções adequadas às realidades locais.
O “Mês do Patrimônio Cultural 2025” intensificou o debate sob o tema Participação Social, Territórios e Sustentabilidade, promovendo atividades em escolas, museus e centros comunitários. Essa mobilização reforçou a ideia de que a defesa do patrimônio é uma responsabilidade compartilhada.
A Carta categoriza os bens culturais para guiar ações específicas de salvaguarda. É fundamental entender cada tipologia para alocar recursos e expertise de forma eficaz.
Cada categoria demanda intervenções adaptadas: por exemplo, museus requerem sistemas de climatização e digitalização, enquanto sítios arqueológicos pedem monitoramento geotécnico e planos de emergência.
Na Amazônia, a intensificação de secas tem prejudicado cerimoniais de comunidades ribeirinhas, comprometendo a produção de artefatos de madeira e fibras naturais. No Rio Grande do Sul, enchentes sucessivas inundaram acervos de pequenos museus, destruindo peças raras e afetando a memória local.
Em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, a alternância entre chuvas intensas e longos períodos de estiagem provoca fissuras em edificações tombadas, exigindo reparos urgentes. As trincheiras de sítios rupestres no Pampa sofrem erosão acelerada, ameaçando pinturas ancestrais.
Os impactos vão além da perda de objetos ou estruturas: representam a descontinuidade de práticas culturais, a evasão de comunidades e a fragilização de identidades coletivas.
Ao integrar essas frentes, é possível garantir ações imediatas de emergência e promover a manutenção preventiva, assegurando a durabilidade dos bens culturais.
A Carta determina que governos federais, estaduais e municipais incorporem o patrimônio cultural em seus planos climáticos, destinando recursos financeiros, humanos e técnicos. A criação de um fundo público multissetorial é um avanço significativo, garantindo acesso facilitado para instituições locais, povos indígenas e comunidades tradicionais.
Na cidade de São Paulo, por exemplo, a revisão do Plano Diretor Estratégico em 2023 incorporou diretrizes para valorização cultural e reconhecimento de territórios tradicionais, mas ainda carece de integração nos planos climáticos específicos.
A força das iniciativas comunitárias é decisiva. Comités locais de monitoramento podem operar em tempo real, registrando variações climáticas e seus efeitos sobre o patrimônio. Projetos de agroecologia e soberania alimentar, vinculados a saberes ancestrais, promovem a recuperação ambiental e cultural.
Em parceria com escolas, museus e centros culturais, programas de museologia social e comunitária, como o EducaClima, podem envolver crianças e jovens em atividades de mapeamento, oficinas de artes e registro oral, fortalecendo laços intergeracionais.
Hackathons culturais, podcasts e redes sociais são instrumentos poderosos para disseminar informações, atrair voluntários e fomentar debates sobre justiça climática e patrimônio.
A sustentabilidade proposta pela Carta articula os pilares social, econômico e cultural, assegurando a continuidade e reconhecimento das comunidades. A meta global para 2030 exige não apenas proteger bens, mas fortalecer redes de apoio e criar novas oportunidades de desenvolvimento.
Avanços tecnológicos, como digitalização 3D, realidade virtual e inteligência artificial, podem complementar ações tradicionais, ampliando o alcance das narrativas culturais e garantindo sua preservação digital.
É essencial que governos, setor privado e sociedade civil trabalhem de forma coordenada, transformando a crise climática em uma oportunidade de renovação cultural. Cada pessoa pode contribuir: seja participando de debates públicos, apoiando iniciativas locais ou simplesmente valorizando e divulgando as riquezas do nosso patrimônio.
Somente assim construiremos um futuro onde história, identidade e meio ambiente caminhem juntos, garantindo que a diversidade cultural brasileira seja um legado vivo para as próximas gerações.
Referências